
Ainda eram oito da noite e eu já estava em meu quarto aguardando a tempestade mais tenebrosa e aterrorizante que já vi, acabar. Os ventos fortes carregavam tudo que não estava solto, era impossível qualquer pessoa ou animal andar ou correr pelas ruas. Nunca vi uma tempestade como essa. Sempre me auto intitulei o mais corajoso de todos os garotos, mas com essa tempestade toda minha coragem tinha desaparecido. Com certeza. Não que eu fosse medroso, só na maior parte do tempo, acho que noventa e nove por cento de mim é a parte medrosa, o outro um por cento era a parte corajosa. Você pode não acreditar, eu mesmo não acredito, teve uma vez que eu protegi minha mãe de um maribondo malvado, sim...sim é verdade, quando ele pensou em picar o braço da minha mãe, eu coloquei meu dedo indicador na frente e fui picado no lugar dela. Incrível né, esse foi o meu maior ato de coragem até hoje. Minha mãe sempre me lembra desse dia, claro que os meus amigos dão boas risadas desse assunto, mas até que eu levo numa boa.
– Quando que essa tempestade vai passar? - Eu disse cerrando meus dentes de medo.
– Não aguento mais ficar aqui, cadê a mam... - Disse quando de repente fui interrompido por um barulho que vinha das escadas. Alguém com pisadas fortes na escada, subia bem rápido em direção ao meu quarto.
Comecei a ouvir passos, passos que ecoavam pelos corredores da casa, eles me deixavam cada vez mais assustado, a cada passo que era dado, eu ficava com a sensação de que algo muito ruim poderia acontecer.
– Meu Deus, o que será isso? Tenho que me proteger. - Pensei baixo, logo pulei da cama, vesti minhas sandálias, peguei um taco de beisebol de baixo da cama e me escondi no meu pequeno armário velho.
Dentro do armário quanto mais silêncio eu fazia, parecia que os passos iam se aproximando cada vez mais, até que a pessoa responsável pelo barulho entrou em meu quarto. Se abaixou, deu uma leve checada de baixo da minha cama, em seguida se levantou e disse:
– Jameeeeeeees! Cadê você? Pare de agir como criança e apareça agora mesmo! - Ordenou a pessoa de voz feminina, que passou um certo medo. Mas logo percebi que era minha mãe, sendo a mesma de sempre.
– E-Estou aqui mamãe. - Gaguejei gritando de espanto, saí do armário às pressas, joguei o taco de beisebol no chão e sentei na cama.
– Mas o que significa isso? - Indagou ela.
Franziu a sobrancelha, sentou-se na cama e ficou frente a frente a mim. Pude perceber que queria apenas a verdade, nada de mentirinhas infantis desta vez. Sim desta vez, eu sempre inventava alguma coisa, como E.T., buraco negro e até gnomos, ela acreditava ou fingia que acreditava, não importa, eu sempre saia ileso por tudo.
– Estava apenas me precavendo contra um possível ataque. - Respondi rindo sem graça. Afinal eu sabia que não sofreria ataques, ainda mais no vilarejo onde eu morava, que é sempre um lugar calmo e livre de confusões.
– Filho não tenha medo, é só uma chuva e não um ataque. Está tarde, vá dormir! Amanhã ainda tem aula antes de irmos. - Ordenou minha mãe novamente.
Em seguida me deu um aconchegante e gostoso beijo de boa noite na bochecha direita e se levantou da cama.
– Temos mesmo que nos mudar? Poxa eu gosto tanto daqui, não queria ir embora. - Perguntei a ela tentando fazer meu olhar mais bonito e gentil possível, para convence-la a muda de ideia.
– James já conversamos sobre isso, não há nada que possa fazer. Sabe muito bem que por causa da promoção que recebi, temos que nos mudar. Agora já chega! Deite! - Respondeu ela me dando um segundo beijo, desta vez na bochecha esquerda e completando com um rápido. -Te amo!
– Ok! Também te amo, até amanhã. - Disse inconformado e com o tom de voz triste.
Não queria me mudar, eu ficarei sem meus melhores e únicos amigos. Na cidade onde moraremos não terei ninguém para conversar ou para sair. Aqui onde moro, mesmo sendo um pequeno vilarejo no interior do Rio de Janeiro, é um bom lugar para se morar e fazer amigos de verdade. Pois todos são sempre bons e gentis com você, ou contrario de algumas pessoas da cidade grande.
– Até amanhã! - Comentou minha mãe rápida e direta, abriu a porta do quarto com calma, saiu e a fechou lentamente.
A tempestade ainda continuava, o céu estava mais escuro do que o normal, as nuvens já não eram brancas, muito menos cinzas, estavam completamente escuras e isso era o que deixa tudo mais aterrorizante e estranho. Eu ainda estava com muito medo da tempestade, mas mesmo assim eu tinha que tentar dormir, me revirei várias vezes na cama, mas ainda não estava com sono, então decidi pegar um livro que estava sobre o meu criado-mudo, devorei algumas páginas e quando me dei conta já tinha pegado no sono e estava sonhando.
No meu sonho, estava na frente de casa, mas as coisas estavam diferentes, a porta de casa estava arrombada, as janelas estavam todas com os vidros quebrados. A casa dos meus amigos que viviam pela redondeza, não existia mais, mas no espaço, e nas ruas era raro ver alguém. Decidi então, entrar em casa. Ao entrar no cômodo principal vi gotas de sangue que vinha da escada e terminavam na porta, com isso me desesperei, comecei a gritar o nome de minha mãe, mas fiquei sem nenhum retorno, até que decidi subir e entrar no quarto dela. Subi a escada desesperado, tropecei em alguns degraus, mas consegui subir rápido. Na parte de cima, percebi que a porta do quarto da minha mãe, que ficava no início do corredor estava aberta e com marcas de sangue, entrei no quarto com cautela, avaliei todo o espaço e não vi nenhum movimento suspeito, percebi que tudo no quarto estava em seu devido lugar, ou seja, do jeitinho arrumado que a minha mãe gosta. Comecei a procura-la, vasculhei seu closet, chequei debaixo da cama e ao entrar no banheiro, entrei em choque ao ver ela caída no chão, com marcas de facadas por todo o corpo e em sua cabeça a faca, que teria sido usada no crime, estava cravada na testa da mesma. Depois de voltar para a realidade e reparando nesta horrível cena de novo, entrei em desespero e comecei a gritar, comecei a perguntar a mim mesmo, do por que isso estava acontecendo logo comigo, o garoto mais "corajoso" de todos. Depois de alguns segundos olhando o corpo dela, ouvi passos no corredor, me levantei rapidamente, e corri tentando descobrir o que era ou quem era. Sai em disparada do quarto, passei pelo corredor e desci a escada tropeçando novamente nos degraus, depois de descer vi uma pessoa saindo da casa, fiz a mesma coisa, mas ao sair da casa me deparei com outro ambiente, toda cidade havia mudado, parecia que eu estava em outra dimensão, o céu estava rosa quase virando vermelho, o chão era de terra e eu sentia que já tinha visto esse lugar antes, mas não sei de onde. Ainda preocupado com minha mãe, olhei para trás para tentar voltar para casa, mas após me virar, a casa tinha sumido, como isso aconteceu? Perguntei a mim mesmo, sem pensar em algo concreto, decidi vasculhar o local. Comecei a caminhar e após andar por três quarteirões, vi dois homens conversando sob uma árvore, de folhas pretas que caíam lentamente conforme o vento soprava. Um dos homens, tinha cabelos loiros, olhos azuis, de pele branca, vestia um longo casaco preto, uma camiseta preta com um " X" vermelho no meio, calças de um tom meio marrom e sapatos formais, com detalhes vermelhos. O outro homem era negro, tinha cabelos pretos e lisos, olhos castanho-claro, vestia um jaleco branco, blusa preta, e sapatos formais. Pude perceber que os homens estavam discutindo, percebi pelo tom de voz de ambos, não sabia se algum deles tinha algo haver com o assassinato da minha mãe, mas eu precisava ter minha resposta, em um gesto involuntário, gritei-os, que olharam fixamente para o lado, percebendo minha presença, de repente a feição de ambos se desfigurou e o meu sonho ficou todo torto, até que já me via em outro lugar. Eu havia acabado de chegar em uma floresta, com grandes árvores de folhas verdes e brilhantes que de tão grandes chegavam a tampar a visão do céu, ao redor haviam flores de todos tipos e cores. Eu ainda tentava encontrar algum caminho para voltar para casa, até que ouvi uma voz feminina falar em no meu ouvido dizendo: James, encontre o cristal. A voz repetia está frase várias vezes, deixando-me atordoado e me fazendo perguntar do por que eu deveria encontrar o cristal e para que. Até que de repente uma luz azul-esbranquiçada apareceu um pouco à frente e ....
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Acordei suando frio e tremendo, meus olhos estavam bem arregalados de espanto. Logo me dei conta de que tudo não passava de um sonho, ou melhor de um pesadelo. Olhei para o relógio e vi que já eram sete e meia da manhã, para variar estava atrasado para a escola, como eu ia mudar de escola, eu já nem ligava mais em chegar cedo. A única coisa que que atormentava minha cabeça era o pesadelo horrível que tive, será que foi apenas um pesadelo ou um presságio onde eu encontraria minha morta? Não! Com certeza era um pesadelo, afinal eu ia me mudar e não estaríamos mais na casa que ela tinha sido assassinada. Ou seja, tudo não passava de um pesadelo bobo. Não era nada em que eu precisasse me preocupar.
– James! Já levantou? - Gritou minha mãe subindo as escadas, vindo em direção ao me quarto.
Seu tom de voz estava como sempre, calmo e sereno, cada palavra dita por ela me acalmava de algum jeito. Não sei como explicar, era como se eu tivesse esquecendo o pesadelo aos poucos. Tudo pela voz dela.
– Sim, sim, já levantei! - Respondi saltando da cama.
– Ainda não está arrumado? Você ainda tem escola, sabia? - Disse ela entrando em meu quarto sem bater na porta.
– T- Tudo bem mãe, eu vou me arrumar. - Eu disse dando um beijo na bochecha direita da minha mãe.
Andei até o armário que ficava de frente para a cama e peguei o uniforme escolar.
– Vamos, se arrume rápid... - Ordenava ela quando foi interrompida pelo toque da campainha.
– Tem alguém na porta. - Eu disse desesperado.
Queria que ela saísse do quarto e me deixasse por o uniforme em paz.
– Eu ouvi! Vou ver quem é, e anda logo. - Disse ela correndo para as escadas.
Ela sai do quarto, passa pelo corredor, ouve a campainha tocar, desce as escadas, fazendo tudo com a, mas calma do mundo, se aproxima da porta, ouve a campainha tocar novamente, coloca a mão na maçaneta, gira a mesma e finalmente abre a porta, percebendo que era somente o carteiro, respira aliviada.
– Desculpe a demora! O que deseja? - Indagou ela olhando para o carteiro seriamente.
– Senhora Marta Collings, tenho uma entrega para um tal de James Collings. - Responde o rapaz
– É meu filho, pode entregar. - Diz ela sendo direta como sempre.
– Aqui está, tenha um bom dia. - Finaliza o rapaz.
Minha mãe pega uma pequena caixa com o rapaz e fecha a porta rapidamente, parecia estar até com medo de algo ou de alguém. Novamente respira aliviada. Desço a escada com rapidez e chego até a porta da frente
– Mãe? Tudo bem? O que era? - Perguntei curioso.
– Estou bem! Era só o carteiro, ele deixou isso para você. - Respondeu
Minha mãe entrega uma caixa, me olhando séria. Confesso que estou achando as atitudes dela, muito estranhas, ela nunca olhou para mim assim, alguma coisa devia estar acontecendo ou estava prestes a acontecer, mas como não queria tirar previsões precipitadas, fingi que não percebi nada, como sempre fiz e faço.
– Para mim? Que estranho, não estava esperando nada. - Estranhei, mas em seguida abri a caixa com voracidade, queria saber o que tinha dentro da caixa.
– Então, o que tem aí? - Indagou minha mãe, parecia estar mais curiosa do que eu mesmo.
– Parece um cristal, parece não, é um cristal! - Respondi pegando um pequeno cristal azul de forma triangular de dentro da caixa. Joguei a caixa no chão e comecei a olhar o cristal admirado, meus olhos estavam praticamente cintilantes ao ver aquela coisa maravilhosa. Parecia que quando eu toquei o cristal, todo o meu corpo tinha sido purificado, tudo estava mais calmo e leve. Parecia que eu ia soltar uma onda de poder por todo lado.
– O cristal? - Disse minha mãe em voz baixa.
Ela estava nitidamente surpresa. Acho que ela não percebeu que reparei no seu espanto por ter visto o cristal em minha mão, ela sabia alguma coisa sobre ele e não queria me contar.
– Você já viu este cristal? - Perguntei esperançoso.
– N- Não, não, nunca vi nada igual. - Respondeu com leves gaguejadas.
Suas mãos estavam tremulas e seus olhos estavam sem destino, ela estava aparentemente tensa, qualquer um perceberia, só que ela mesma não se dava conta disso, decidi não falar nada para não a deixas mais nervosa do que já estava.
– Também tem um bilhete aqui. - Comentei assim que reparei um pequeno papel dourado dentro da caixa.
O bilhete era todo dourado, e ao pega-lo percebi que nas partes frontal e traseira, um desenho que parecia ser um sol, brilhava sempre que eu tocava.
Estranho, como isso pode acontecer, é algum tipo de magia? Não... não, isso não existia. - Me peguei pensando ao olhar o bilhete.
– E o que está escrito ai? - Indagou ela.
Senti que sua voz tremeu na hora de dizer filho, para não a deixas no vácuo, respondi rapidamente.
– O bilhete diz, encontrou o cristal? - Disse arregalando meus olhos.
A frase meu deixou frenético, comecei a recordar do pesadelo que tive e pude concluir que talvez o pesadelo poderia se tornar verídico, esse era meu maior medo. Será que encontrarei minha mãe morta? Ficarei órfão? O que seria de mim, se tudo isso acontecesse?
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